Promoção de Saúde Mental: quem está no varejo?
- Drica Rocha

- 16 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Kalil Bentes, 15/12/2025
Quais as questões que se colocam quando falamos de Saúde Mental? Por onde anda o
assunto? Em que nos toca?
Me propus a escrever um pouco sobre isso, e em como nos distanciamos de boas respostas quando ignoramos em que se baseiam as perguntas, e mais: quais as causas de problemas, sem vesti-los de moralismo, de achismos ou “coisismos” quaisquer.
Se durante tempos, até mesmo séculos e milênios, o sofrimento mental era lido como competência da religião (psi vem do grego, e pode significar alma ou mente), a ciência veio trazer um novo olhar para esse pedaço humano: a despeito de qualquer Teologia, entendeu-se que o ser humano é formado de corpo e mente, sendo essa mente algo imaterial, que não é sinônimo de cérebro apesar de intimamente interligado a este último.
Deixo que a história através de pesquisa leve quem me lê da Filosofia de René Descartes até os avanços da medicina neurológica de Paul Broca e Carl Wernicke para então desaguarmos em Sigmund Freud (1856 - 1939), que não se contentando com sua formação em Neurologia, investigou o sofrimento de mulheres europeias que manifestavam sintomas corporais sem que houvesse um diagnóstico clínico – a Histeria - através da escuta e a partir disso, formulando como o psiquismo é formado socialmente e posteriormente sistematizando a Psicanálise.
Podemos falar um pouco sobre como Lev Vigotsky (1896 - 1934) entendeu a formação do psiquismo dos sujeitos a partir das interações sociais e mediações: o sujeito primeiramente se desenvolve socialmente através da comunicação, para depois se desenvolver internamente, através de seus pensamentos. O processo observado por Vigotsky é da comunidade para o indivíduo, de modo que o psiquismo de cada um reflete sua situação em sociedade. O ponto no qual quero chegar é: apesar de as ciências evoluírem absurdamente em diagnósticos médicos e psicológicos, e na leitura de como a Economia, Educação, Nutrição, Cultura e Alfabetização têm efeitos comprovados na promoção de Saúde da população e também em seu adoecimento, ainda nos organizamos institucionalmente, socialmente e individualmente para tratar sintomas e não para prevenção ou tratamento das causas. Explico melhor meu ponto:
Quando uma pessoa apresenta sintomas de desânimo, cansaço, e encontra grandes dificuldades para dar conta das responsabilidades de casa, do trabalho, família, etc. Não apenas os profissionais da Saúde têm extrema facilidade em olhar para os sintomas e receitar vitamina B12, reguladores de humor, antidepressivos, como também é o que os pacientes costumam buscar em suas consultas médicas. A preocupação maior é a de retornar à cadeia produtiva rapidamente.
Perceba: é legítimo querer sentir-se bem, e ser produtivo naquilo que a gente se propõe ou deseja realizar; porém, é notável o quanto de sofrimento se acumula causando mais adoecimento quando se olha apenas para os sintomas da doença, e se rejeita a crítica à estrutura que causa o adoecimento. O tempo aplicado ao deslocamento de casa para o trabalho e no seu retorno, geralmente em transportes superlotados e demorados; a ausência de garantias de estabilidade no emprego e trabalho; jornadas semanais que ultrapassam os 5 dias, com necessidade de “fazer bicos” para complementar o orçamento precário; a alta dos preços dos alimentos e atividades culturais, impossibilitando acesso à nutrição de qualidade biológica e afetiva, e às expressões artísticas; a completa ausência de ócio e com isso, um pensamento crítico cada vez mais ausente; todos são fatores que adoecem cada vez mais os sujeitos e os levam para longe de um convívio social sadio e da construção coletiva de espaços onde a Saúde Mental é construída e promovida com a Saúde Física.
Há pouco espaço para atividades prazerosas e que fazem com que cada indivíduo se sinta uma parte importante de sua comunidade; a busca pelo prazer, segundo Freud, é um mecanismo psíquico fundamental: basicamente, quando não encontramos prazer em atividades significativas, nosso psiquismo busca novas formas rápidas de prazer – e daí, a facilidade de adquirir problemas com substâncias psicoativas como bebidas alcoólicas, outras substâncias ilícitas, e atualmente numa parte central do debate, o vício em telas com “feeds” infinitos, estimulando a produção de dopamina rápida e contínua... mecanismo de vício.
As questões são, segundo uma análise responsável: para que haja promoção de saúde, as cidades precisam de um novo modo de funcionamento, não baseado numa lógica que adoece, onde cada cidadão é pouco mais que um número (um voto...); mas sim onde cada ser humano seja contemplado em suas necessidades básicas. É impossível estar bem e apto para o trabalho se estar sem moradia é uma ameaça real e próxima; não é possível gerar renda se não há um investimento no desenvolvimento humano como um todo.
É necessário estar sensível para que isso nos toque: o perceber que só se conseguirá estar realmente bem quando o bem for comum. A lógica das cidades não deveria ser a de Mercado, pois não somos mercadorias para dar lucro: somos projetos para sermos investidos para a manutenção do planeta.
Kalil Bentes - Músico há 25 anos, atua há 7 como Oficineiro e Redutor de Danos em CAPS-AD. Psicanalista-Membro da ACP e Bacharelando em Psicologia.
![PIXABAY. Psicologia: psicologia cognitiva [Imagem]. Pixabay, s.d. Disponível em: https://pixabay.com/pt/photos/psicologia-psicologia-cognitiva-6809884/. Acesso em: 16 dez. 2025.](https://static.wixstatic.com/media/989336_439d945ebad744bc87940fe0e7b283f7~mv2.png/v1/fill/w_980,h_653,al_c,q_90,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/989336_439d945ebad744bc87940fe0e7b283f7~mv2.png)



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